05-10-2024
“Revelação de Jesus Cristo, que lhe foi
confiada por Deus para manifestar aos seus servos o que deve acontecer em
breve. Ele, por sua vez, por intermédio de seu anjo, comunicou ao
seu servo João, o qual atesta, como palavra de Deus, o testemunho de
Jesus Cristo e tudo o que viu” (Apocalipse
1, 1-2).
João de Patmos, ainda nos dias de hoje,
continua sendo um personagem que gera controvérsias entre os exegetas. Desde os
primeiros séculos, o livro do apocalipse tem sido causa de varias polêmicas:
estilo literário, simbolismo e autoria foram os pontos cruciais das discussões
sobre a inspiração Divina desse maravilhoso livro.
“Logo continuando, pouco mais
abaixo, diz o seguinte sobre o apocalipse de João:
Assim, pois alguns dos nossos antecessores rechaçaram como espúrio e desacreditaram
por completo o livro, examinando capítulo por capítulo,
e, declarando que era ininteligível, ilógico, e seu título
enganoso” (Euzébio
de Cesareia, História Eclesiástica, Livro VII, Capítulo XXV, Verso I).
Obs.: Ininteligível – que não se
pode entender, cujo sentido é difícil de captar, complexo, incompreensível,
misterioso e obscuro.
“Eu, de minha parte,
não poderia me atrever a rechaçar o livro, pois são muitos os irmãos que o
tomam a sério, mas ainda admitindo que o pensamento que encerra
excede minha própria inteligência, suponho que o sentido de cada
passagem está em certo modo encoberto e é bastante
admirável, porque, mesmo que não o compreenda, ainda assim,
suspeito ao menos que nas palavras se encerra alguma intenção mais
profunda” (Euzébio
de Cesareia, História Eclesiástica, Livro VII, Capítulo XXV, Verso IV).
Neste artigo, vamos falar um pouco sobre
o autor, ou seja, quem foi João de Patmos.
“Eu, João,
vosso irmão e companheiro nas tribulações, realeza e na paciência em união com
Jesus. Estava na ilha de Patmos por causa da palavra de
Deus e do testemunho de Jesus” (Apocalipse 1, 9).
Há três possibilidades sobre à autoria
do livro do apocalipse.
São João filho de Zebedeu.
São João presbítero.
São João Marcos discípulo apostólico.
“Logo continuando, pouco mais
abaixo, diz o seguinte sobre o apocalipse de João:
[...] Dizem mesmo que não é de João e que tampouco é
apocalipse, estando como está bem velado com o grosso manto da ignorância,
e que o autor deste escrito não só não foi nenhum dos apóstolos,
mas que nem sequer nenhum santo ou membro da Igreja em
absoluto, mas Cerinto, o mesmo que instituiu a heresia cerintiana e que quis
dar credibilidade a sua própria invenção com um nome digno de fé” (Euzébio de Cesareia, História
Eclesiástica, Livro VII, Capítulo XXV, Versos I e II).
“Depois disto e depois de examinar todo
o livro do apocalipse [...] não contradirei que ele se chamava João e
que este livro é de João. Porque inclusive estou de acordo de que é obra de um
homem santo e inspirado por Deus. Mas, eu não poderia concordar
facilmente, em que, este fosse o apóstolo, filho de Zebedeu e
irmão de Tiago. [...] Portanto, que é João que escreve isto, temos que crê-lo,
pois ele o diz; mas não está claro quem seja este, pois não diz, como em muitas
passagens do evangelho, que ele é o discípulo amado pelo Senhor. [...] Eu
creio que houve muitos discípulos com o mesmo nome do apóstolo João, os
quais, por amor a ele, por admirá-lo e escutá-lo, por querer ser amado como ele
pelo Senhor, afeiçoaram-se a esse mesmo nome da mesma forma que, entre os
filhos dos fiéis, abundam os nomes de Paulo e Pedro. Assim, pois, nos Atos dos
apóstolos há também outro João, de sobrenome Marcos a
quem Barnabé e Paulo tomaram consigo. [...] Eu creio que foi outro
dos que viveram na Ásia. Diz-se que em Éfeso havia dois sepulcros e que
cada um dos dois era atribuído a João [...] naturalmente que é uma pessoa
diferente do outra” (Euzébio
de Cesareia, História Eclesiástica, Livro VII, Capítulo XXV, Verso IV-XXVIII).
Creio que podemos descartar a terceira
possibilidade, pois o estilo literário do livro do apocalipse é bem diferente
do evangelho escrito por São Marcos. Também podemos descartar a ideia de outro
discípulo qualquer, pois um personagem desconhecido do contexto histórico dos
primeiros anos de Cristianismo seria inadmissível!
Temos que levar em consideração as
palavras de Euzébio. O grande historiador do terceiro século – baseando-se nos
relatos de seus antecessores –, acreditava na inspiração Divina do apocalipse,
mas negava que São João filho de Zebedeu fosse o autor do livro.
Os padres apostólicos divergiam nas
opiniões sobre o assunto. Alguns tratavam o apocalipse como um livro espúrio,
outros como um livro cristão apócrifo, e ainda, outros como um livro canônico
inspirado por Deus, mas com algumas ressalvas.
È coerente as observações de Euzébio.
Segundo o seu conceito, tanto nas cartas católicas como no evangelho, o
discípulo amado não se apresenta como sendo João, o autor sempre aparece com um
pseudônimo oculto. Já no apocalipse, declaradamente, o autor se apresenta pelo
nome.
“Eu, João, vosso irmão e
companheiro nas tribulações, realeza e na paciência em união com Jesus. Estava
na ilha de Patmos por causa da palavra de Deus e do testemunho de Jesus” (Apocalipse 1, 9).
Há relatos de que, outro João, conhecido
como presbítero, viveu naquela região e era muito benquisto entre os membros da
igreja. Segundo alguns padres apostólicos, esse reconhecido presbítero, foi o
autor do livro do apocalipse. O que seria totalmente admissível.
Eu, porém, nego completamente que João
presbítero seja o autor do apocalipse. Creio plenamente que o autor seja São
João filho de Zebedeu. Dois são os motivos que me lavam a creditar à autoria do
livro do apocalipse a São João filho de Zebebeu.
Primeiro – o discípulo amado é o único,
além do autor do apocalipse, que trata Jesus Cristo como: VERBO DE DEUS.
“No princípio era o Verbo, e o Verbo
estava junto de Deus e o Verbo era Deus” (João 1, 1).
“Vi ainda o céu aberto: eis que aparece
um cavalo branco. Seu cavaleiro chama-se Fiel e Verdadeiro, e é com justiça que
ele julga e guerreia. Tem olhos flamejantes. Há em sua cabeça muitos diademas e
traz escrito um nome que ninguém conhece, senão ele. Está vestido com um manto
tinto de sangue, e o seu nome é Verbo de Deus” (Apocalipse 19, 11-13).
Segundo – foi prometido ao discípulo
amado que vivesse até a VINDA DE SENHOR. O apocalipse foi
exatamente a vinda do Senhor em juízo contra Israel. Jesus Cristo cumpri sua
promessa ao discípulo amado quando mostra ao mesmo, aquilo que iria acontecer
em breve (naquela geração).
“Voltando-se Pedro, viu que o
seguia aquele discípulo que Jesus amava. Vendo-o, Pedro perguntou a
Jesus: Senhor, e este? Que será dele? Respondeu-lhe
Jesus: Que te importa se eu quero que ele fique até que eu venha?
Segue-me tu. Correu por isso o boato entre os irmãos de que aquele discípulo
não morreria. Mas Jesus não lhe disse: Não morrerá, mas: Que te importa se
quero que ele fique assim até que eu venha? Este é o discípulo que dá
testemunho de todas essas coisas, e as escreveu. E sabemos que é digno de fé o
seu testemunho” (João
21, 20-24).
Conclusão: sendo João presbítero ou São
João filho de Zebedeu, é incontestável a inspiração Divina do livro do
apocalipse e sua importância para história do Cristianismo. Entre os exegetas,
há um consenso de que, João Filho de Zebedeu, seja o autor. Porém, não é
descartada a ideia do autor ser João presbítero. Contrariando alguns
reformadores, como Lutero que dizia: “Sobre o livro do Apocalipse de
João, deixo todos livres para terem suas próprias opiniões. Eu não obrigo
ninguém a seguir minha opinião ou julgamento. Eu digo o que sinto. Eu sinto a
falta de mais de uma coisa neste livro, e isso me não faz considerá-lo nem
apostólico nem profético”[1]. Os Cristãos – pós-concílios de Cartago e
Hipona –, jamais duvidaram de sua inspiração. O livro do apocalipse foi
profético para geração apostólica, histórico para o Cristianismo e esperança
para igreja. Amem...
Autor: Cristiano Macabeus.
Notas:
[1] Martinho Lutero, Works of Martin Luther, Filadélfia: Holman, 1932, 6, 488.
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